D’Agostim di Paratella, Vada a bordo, cazzo!

Por : | 0 Comentários | On : 14 de dezembro de 2017 | Categoria : Crônicas Gastronômicas

D’Agostim di Paratella

Textão, mas juro que vale a pena!

Encara, por favor?

 

Relato de um almoço sucedido na ultima quarta feira (29/11/17) no restaurante D’Agostim di Paratella. Estive no local em outra ocasião, almoçando com o marido. Atendimento excelente, chef simpático e solicito, comida boa. Única crítica que fizemos foi relativa às porções pouco fartas.

Ontem cheguei para o almoço executivo acompanhada de uma criança de dez anos. Chegamos pontualmente as 12h e fomos os primeiros clientes a entrarem no restaurante. Avisei que estava com o tempo corrido, que tinha que deixar o garoto na escola as 13h. Pedimos as bebidas, meu filho adolescente chegou 12:10h. Fizemos os pedidos imediatamente e reforcei a questão do tempo curto. “Sem problema senhora, tá tranquilo” respondeu o atendente simpático. Rapidamente chegaram as entradas. Muito saborosas. Alegre, as fotografei como sempre faço em almoços e pratos felizes. Comemos e ficamos esperando o prato principal: 2 massas (a minha pedi que trocassem o molho à bolonhesa por molho ao pomodoro) e a criança pediu uma carne malpassada (aprendi hoje que essa é a grafia certa) guarnecida com batatas.

12:30hs. Nada. 12:40hs chamo o garçom e digo: “você não está entendendo, falei que tinha que deixar o menino na escola as 13h. Ele fala que vai verificar e volta da cozinha dizendo que naquele momento tem duas pessoas trabalhando na finalização dos nossos pratos. Ufa! 12:45 avisto 3 cloches saindo da cozinha e falo para a criança que teremos que comer rapidão. Eram os pratos da mesa vizinha (emoji com olhinhos revirados). Fiz cara de quem perdeu a piada porque estava certa de que fomos os primeiros clientes a efetuar o pedido. Enfim, procuro o atendente simpático para falar que era o dead line. Ele disfarça, foge do meu contato visual num salão pequeno. Situação ridícula. Apelo para outro garçom, e peço que me tragam pelo amor de Deus, Jeová e Messias qualquer coisa que o menino pudesse comer! Vácuo. Tento usar libras. Não funciona…

12:52h saio da mesa puxando a criança às pressas e o atendente simpático que me ignorava há instantes, assume a forma do Bolt, pula sobre mim para avisar que os pratos estão saindo naquele momento. Falo com a educação que não sabia que tinha, que sinto muito, mas não tinha condição de esperar, a criança tinha prova e era filho de uma amiga. Vou correndo com o coitadinho pela rua, escola a 1 quarteirão do restaurante. Parada de 40 segundos para comprar um pão de queijo pra sair comendo e um pacote de
biscoito para comer escondido em sala (Deus me perdoe se iniciei o garoto no mundo do trambique)

Paro, respiro e prometo a mim mesma que vou fingir que nada aconteceu. Foco agora em voltar ao local, me sentar plena e impávida para ver a banda passar. Retorno ao restaurante e dessa vez parecia ser verdade que o prato estivera prestes a sair. Meu filho adolescente comunica que já havia comido. (Sim, ele come em 5 minutos e não, não sou a louca do relógio, mas o tempo era a única coisa importante para mim naquele almoço, tanto que eu sinalizei isso de pronto. O atendente simpático se desculpa por não ter podido me atender no MEU tempo.

Questão 1: Se tratava de um menu executivo (que tem por caráter a celeridade) e cacetemente repito aqui que avisei do meu tempo parco quando fui assegurada de que não teria problema. O atendente simpaticamente pergunta nesse momento: “e aí, como faremos com o prato do menino? Faço uma marmitinha para ele?” Luta interna contra meus instintos para não responder: claro, genial! Ele come enquanto faz a prova! Você tem delivery?! Respiro e lembro da minha auto promessa.

Meu filho, adolescentes são geniais no jogo do improviso, porque vivem disso; soluciona o MEU problema convidando um amigo vizinho do restaurante para comer o prato que era da criança. Estou tão cansada e chateada com tudo (imagina minha cara ligando para a mãe do menino e avisando que o deixei na escola à galope e “almoçado” com um pão de queijo?!). Nem respondo, concordo mentalmente. O amigo chegará em 10 minutos. Nesse interim, sou mais invisível do que o avião da mulher maravilha.

Chega o amigo. Peço para soltarem os pratos. Aleluia! Parece uma miragem, mas é verdade, chegam as duas cloches. Nossas, yes! Ao abri-las a revelação se assemelha a um reality televisivo desses de transformação. Só que ao contrário. Minha massa ao molho pomodoro, lembra? Bolonhesa. O prato do menino que agora pertencia ao amigo do meu filho é um bife cinza, triste (malpassado, lembra?) e não chega nem perto do tamanho da palma da minha mão; e ela é bem pequena, acreditem. A guarnição são 3 fatias de batatas assadas, que juntas não formavam uma única batata pequena banguela.

O amigo ri. Eu não tenho a presença de espírito de fotografar o prato porque daria pra fazer um meme viral, na linha: se você achava o seu salário pequeno… ou ainda apelar para o clássico “aumente o seu pênis”. Por fim, dividi a minha massa com o adolescente faminto (pleonasmo) e antes de engolir a parte que me cabia naquele latifúndio quase imploro, lá no subsolo da minha dignidade, para o garçom me trazer um pouco queijo ralado (sério, eles fugiam como seu eu fosse radioativa!).

Questão 2: o menu executivo tem um bom preço, R$35 (carne) mas foi brincadeira de mal gosto o tamanho da porção (não abandona a leitura por favor! Não falarei mais de tempo, prometo!). Levianamente acredito que acharam que por se tratar de criança comeria pouco, o que não corresponde à verdade neste caso, e prepararam algum retalho de carne desgarrado. E o preço continua o mesmo, igual à voz do Denorex. Patético.

Questão 3: esse textão não se destina a descer o cacete e falar mal do estabelecimento. Apenas tenta descrever uma situação e convidar a pensar: o que fazer quando temos problemas nesse métier? Certamente houve muitos nesse episódio. Deve-se ignorar, mentir e tapear o cliente com o surrado bordão do “está saindo em um minuto”?

A discussão aqui é sobre uma ETICA PROFISSIONAL que carece de ser revista, discutida e moldada especialmente nesse ramo tão importante. O atendente simpático era fofs, super bem treinado para um serviço ideal, mas não para as dificuldades que se passaram (das quais não fui noticiada com a verdade que acredito merecer) e, em desespero, foi o primeiro a abandonar o navio naufragado! “Vada a bordo, cazzo!” Sim, a vida imita a vida.

Questão 4: Se eu tivesse gritado, amaldiçoado e xingado a mãe, eles tomariam uma atitude diferente?! Então tem que ser tiro porrada e bomba?!

Ecoo pela ética, e pela boa conduta profissional; não cumpriram um acordo inicial e devo pagar ipsis litteris por isso? Eu não tive energia para reclamar, fiz a cliente “Woodstock” e no final o meu único proveito foi observar a atuação da canastrona ficcional brigada de incêndio com suas mangueiras murchas. Saí de lá cremada.

Penso que por meio de questionamentos assim, podemos contribuir para a construção de uma comunidade gastronômica melhor, mais azeitada (tenho uma certa tara por trocadilhos baratos, desculpe), mais convicta do seu papel/conduta.

Não se trata de dizer que este restaurante é um lixo e que abomina absolutamente tudo naquele lugar ou, ao contrário, que naquele outro é tudo divino, top das galáxias (argh!) e que até o sabonete do recinto parece apetitoso; sabe? Não, não é isso. Acho que podemos ir muito além desse tipo de juízo, de avaliações padrão “lacre quinta série”.

O mote que me guia nessa narrativa critica é muito mais abrangente que um mero julgamento positivo/negativo estéril dos estabelecimentos/profissionais da cozinha. A intenção é ampla e diretamente proporcional a esse campo.

É um mercado que trata de arte, de sonho e de afeto. E como nos afeta! As pessoas envolvidas nele que ralam insanamente só continuarão nesse caminho pedregoso se estiverem verdadeiramente embriagadas por esses elementos.

E para não exagerar na dose de pieguice do texto visto que a medida do sintetismo já era; o final da história é o seguinte: o amigo do meu filho, atravessou a rua, foi até o shopping e comeu um sanduíche gigante da Mc Donald’s.

Agradeço aos pacientes leitores e à compreensiva amiga mãe do garoto. Arremato transmitindo meu sincero desejo de provocar discussões bacanas.

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