Favorita & Exclusiva – Restaurante A Favorita

Por : | 0 Comentários | On : 14 de dezembro de 2017 | Categoria : Crônicas Gastronômicas

Favorita

A Favorita restaurante

Belo Horizonte

Organizar uma comemoração de aniversário para adolescente é mais ou menos assim: ele fica com a incumbência de selecionar e convidar os amigos. Você escolhe o lugar depois de cinquenta sugestões vetadas por ele, checa a disponibilidade, a viabilidade, o cardápio, negocia o método e a logística de pagamento, chama a família que sempre tem uma ou duas avós que não usam o WhatsApp.

Logo, meu amigo, você terá que fazer um telefonema! Não, não estou falando em fazer uma ligação, um telefonema tem suas idiossincrasias, não menospreze o adversário.

Alguém lembra como se faz um telefonema? A partir deste simples gesto, um mundo se abre. De dores nas pernas à receita de pastelão, da ultima missa à saúde da Dona Terezinha, passando por uma atualização completa da vida da comunidade local: quem morreu, quem casou, quem se “perdeu” e quem continua na mesma, mas não poderia ficar de fora do release.

Então, quando você já nem mais se lembra como e porque aquilo tudo começou, e foi definitivamente tragado pelo universo upside down, você enxerga; ao longe, surgindo de um denso nevoeiro, o Mestre dos Magos. Com ele vem a remota possibilidade de voltar para a casa.  Você reúne forças e consegue balbuciar o propósito da sua chamada.

Batalha vencida, objetivo alcançado. Mas antes que você ache tudo simples demais espere que receberá mais um ou dois telefonemas de volta, mascarados sob o propósito de confirmar os dados ou uma fortuita sugestão de presente; mas não se engane, o universo paralelo tornará a se abrir.

Um dia antes do evento você resolve ratificar com seu adolescente de estimação se está tudo ok e descobre aos gritos (ele não pode tirar os fones de ouvido) e sem contato visual (“mãe, não dá pra pausar nessa fase”) que um amigo tem apresentação de dança, o outro já viajou, o terceiro ficou de recuperação e está de castigo e o restante ainda não confirmou e nem sequer leu o convite no WhatsApp (porque aqui não existem telefonemas, claro!).

Você consegue, não sei como, segurar o ímpeto de fazer com que o aniversário não se realize – não porque o evento será cancelado ou adiado – mas porque aquela criatura que sequer nota a sua presença e quiçá a problemática envolvida; não completará mais um ano de vida!

Você opta pela revogação da festa e pela preservação da espécie. Não faz sentido fazer uma festa sem os pares já que nessa idade a família sempre faz figuração.

Triste e fracassada porque VOCÊ falhou na organização, você ainda quer salvar o dia do seu rebento, coitadinho!

Decidem sair para jantar, os orgulhosos progenitores e aquela entidade, que está em um movimento constante, num esforço violento e chato para “caráleo” de inventar e reafirmar a sua própria personalidade. Dezesseis anos.

Onde? Impossível contar com a ajuda dele, mesmo já tendo frequentado a maioria dos estabelecimentos de Belo Horizonte, sempre esteve muito ocupado ao celular para prestar atenção no ambiente, na proposta, no tipo de cozinha ou até mesmo no nome da casa.  A única sugestão que o jovem consegue pensar é: Fogo de Chão. Diante das faíscas que os meus olhos lançam, ele resolve reconsiderar e diz para eu escolher.

08 de dezembro. Feriado na cidade. Chove há dias e faz muito calor. A Amazônia é aqui. Depois de dar os telefonemas desmarcando o evento já não tenho forças para lidar com imprevistos, escolho o líquido e certo: Vamos na A Favorita. Está decidido.

Chegamos às oito e parecia fechado. Contorço e ameaço um desmaio. Não, estava aberta. Vaga na porta. Somos os primeiros a chegar. Culpo o horário prematuro e o clima inamistoso.

Somos recebidos pelo maître cordial e falante. É um personagem ímpar que descreve com segurança as sugestões de pratos com adereços ora em francês, ora italiano; ninados por seu delicioso e carregado sotaque mineiro. Entre foie gras e molho poivre tem-se espaço para uma apetitosa “mortandela” (sim, pronunciada dessa forma genuína) com pistache. É coisa nossa, made in Minas.

Meu filho ignora o fato de já ter ido ao restaurante e eu ignoro a fala dele. Pedimos o vinho e o couvert. Os pães estão murchos, mas a umidade ultrapassa os 100%, estamos na Amazônia, lembra? Tem uma pastinha de lentilhas bem saborosa.

Quero pedir ao garçom para tirar uma foto da nossa mesa, única naquele mar de mesas enquanto penso na possibilidade de vida em outros planetas.

Pretendo tirar onda no Instagram sob a legenda: o dia que eu reservei a Favorita. O meu marido que é ainda mais reservado não concorda.

Pedimos a entrada, escolha do rapaz: iscas de robalo ao aioli. Eu pulei a página na qual a maionese passou a ser chamada de aioli. As iscas vieram num ramekin médio, pareciam pipoquinhas, gostosas e sequinhas. O aioli é um molho tártaro, mas acho que esse nome ficou cafona. R$41 a porção que não era tão porção assim.

Secamos a primeira garrafa de vinho, sede tropical. Vinho bom, Torrontés, cerca de R$100.

Pedimos a segunda garrafa e escolhemos os pratos. Escolha de Sofia. Tudo parecia bom, ainda mais anunciado, quase cantado àquela maneira singular pelo maître cosa nostra.

O adolescente opta pela segurança e sabor garantido dos escalopes de vitela acompanhados de talharim trufado ao molho Alfredo (não sei se a descrição é bem assim, mas o gosto é, e eu já lambi os beiços muitas vezes nesse prato).

Meu marido segue a sugestão do maître e a promessa de mais exclusividade (segundo ele é a ultima posta porque está difícil comprar o peixe dessa qualidade) de um Haddock com ovo poché, acompanhado de batatas e aspargos. Seus olhos brilham como se tivesse ganho um prêmio extra.

Para mim, um Robalo (acho que a entrada deixou gosto de quero mais, ou eu é que não sou suficientemente criativa) acompanhado de arroz negro e pesto de azeitona e pinole.

Ameaço tirar os sapatos já que o clima é tão caseiro. Nesse momento chega um casal. Comemoramos e quero muito chamá-los para sentar a nossa mesa, como quem se alegra ao receber visitas. Eles se sentam no outro salão do restaurante. Decepção. Logo depois aparece outro casal, estes sim se acomodam na varanda, bem a nossa frente. Aceno de longe dando as boas vindas. Logo chega mais um grupo, 4 ou 5 amigos. Um rapaz senta à mesa com um boné vermelho de aba reta. Além de feio (o boné) é algo que considero mal-educado. Aproveito para doutrinar o rebento. Coisa de mãe do século passado.

Os pratos estão demorando. Acho que fizeram um pacto “ninguém sai”. Quando a casa tem mais funcionários do que clientes em um determinado momento, é importante mantê-los (clientes) pelo maior período que conseguir. Não tem problema, está divertido.

Me dou conta de que exclusividade pode ser bacana, mas depois de um tempo começa a ficar chata. A gente, ou eu pelo menos, frequenta restaurantes para comer bem, ser paparicado (jeito gostoso de dizer ser bem atendido) e falar das outras pessoas. De acordo?!

Sempre olho para as mesas que me rodeiam e imagino os nomes, as relações, profissões, motivos de estarem ali… são romances e mais romances mentalmente esboçados naquele curto período da refeição.

Chegam os pratos. Lindos. Poéticos, brilhantes. Meu filho não conversa, treino é treino; jogo é jogo. Eu e meu marido murmuramos, ronronamos. Trocamos garfadinhas de amostras e ficamos felizes por nossas escolhas e também pela escolha alheia. Uma ocasião de paz mundial, uma epifania transcendental. Nos amamos mais nesse momento. É isso que a comida boa faz com a gente. Algo que deveria ser um direito universal da pessoa humana e que certamente faria do mundo um lugar muito melhor.

O adolescente sentencia que para chegar à perfeição seu prato deveria vir o dobro. Com isso abre a deixa para pedir uma sobremesa. Eu e meu marido preferimos nos manter no estado de graça proporcionado pelos pratos principais.

Chegam os Profiteroles. Aparência viril pero murchos. Amazônia é para os fortes, mas NADA há de estragar nosso deleite.

Pedimos a conta. R$700. Retifico, quase nada. Olho para as poucas mesas imaginando o valor da conta deles. Onde foi que eu errei? Me vem à cabeça a clássica desculpa desbotada: “sou de humanas”.

Tento esquecer disso para não esvaírem meus momentos tão felizes. O dia no qual eu reservei a Favorita inteira pra mim e que a casa me lembrou o porquê, no abre e fecha de restaurantes dessa cidade volátil, se faz sempre uma escolha pra lá de estimada.

Saúde meu filho, feliz dezesseis!

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