Dona Derna, Depois de te perder, te encontro com certeza

A minha família nunca foi de frequentar restaurantes. Papai colocava a mesa no alpendre (pra você ter ideia da época) e fazia a piadinha infame de que iríamos jantar fora. Meio tio da Sukita, sabe? Então, me lembro do comichão que eu tive quando meu irmão mais velho (sou a ultima colherada da rapa do tacho) anunciou que iríamos almoçar fora no dias da mães. E não era em qualquer lugar, era no restaurante mais grã-fino da cidade: o Dona Derna .Esse nome ecoou em mim, como uma espécie de cantiga de ninar desde então.


Cresci, fiz minha própria família e por razões freudianas clássicas, frequentar restaurantes virou um dos maiores prazeres domésticos. Já tinha voltado no restaurante em outras ocasiões, principalmente na prisca época (uashashasha) do carrinho de ostras. Aí, caiu meio no esquecimento sabe-se lá o porquê.


Semana passada fui revistar. O ambiente não é meio retrô, é muito. Os garçons parece que nasceram ali. Tudo, a clientela inclusive. O nome disso é tradição.


Não é um lugar que tem técnicas mirabolantes e empratamentos circenses. Não é, em definição estrita uma alta gastronomia, ou uma cozinha criativa de origem. É comida de alma, como deve existir em toda boa casa ítalo-brasileira. É comida que faz fechar os olhos e dá vontade de celebrar a vida. De falar alto, gargalhar e cometer excessos. Sozinha dei cabo de nove ostras nesse dia. Depois uma massa fresca ao vôngole que fez a que eu comi outro dia no Fasano corar e pedir desculpas sinceras. O marido foi no camarão surprise, que segundo soube, deve ter uns quarenta anos que circula por lá. O maître ao explicar o prato disse que não podia revelar o conteúdo, pois assim não seria surpresa. Lembrou meu pai na piadinha acanhada. Lembrou o tempo da delicadeza e da cozinha sem nenhuma outra pretensão que não fosse a de nos fazer felizes.

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